Em Ouro Preto, na Escola de Farmácia da UFOP

No dia 07 de setembro de 2009

Das 13h30 às 18h00

 O I Encontro Intermediário do GTTRAD se oferece como fórum de debate sobre os rumos da pesquisa na área dos Estudos da Tradução. Em confluência com o tema geral do X Encontro Nacional de Tradutores, queremos aprofundar a discussão de questões ligadas à identidade na diversidade da pesquisa na área dos Estudos da Tradução: Desde a década de 70, o que mudou no desenho do mapa de Holmes? O que éramos ontem, o que somos hoje, o que queremos ser amanhã? O que nos une como área? O que nos separa em cada uma de nossas subáreas? Qual o ônus e o bônus desse esforço para manter uma unidade? Quais os custos e benefícios de uma política de centramento disciplinar num campo de vocação interdisciplinar?

Para encaminhar nosso debate, partiremos de dois textos preparados exclusivamente para este Encontro pelas colegas Cristina Carneiro Rodrigues e Maria Lúcia Vasconcellos:

 Os estudos de tradução nos programas brasileiros de pós-graduação, de Cristina Carneiro Rodrigues

ComUNIDADE na diversidade dos Estudos da Tradução, de Maria Lúcia Vasconcellos (http://gttrad.wordpress.com/2009/08/22/comunidade-na-diversidade-dos-estudos-da-traducao/)

 O GTTRAD convida os membros do GT, os pesquisadores da área e todos os interessados a lerem os textos acima mencionados e participarem das duas sessões de debate, que serão moderadas por colegas do GT:

DEBATE 1 – 13h30 às 15h30

Lugares institucionais da tradução no Brasil

Maria Clara Castellões de Oliveira

Márcia Atálla Pietroluongo

DEBATE 2 – 16h00 às 18h00

Tradução: objeto que nos une)separa

Maria Paula Frota

Mauricio Mendonça Cardozo

Para maiores informações, favor entrar em contato conosco pelo email do GTTRAD (gttrad@gmail.com) ou com a Comissão organizadora do ENTRAD (abrapt@gmail.com).

 Contamos com sua participação!

 Coordenação do GTTRAD, biênio 2008-2010

Maria Lúcia Vasconcellos

Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

1. Introdução e historicização de minha fala

A proposta de organização de encontros intermediários para o GTTRAD foi postada no blog do GT-TRAD [http://gttrad.wordpress.com/] em dezembro de 2008: os coordenadores do biênio 2008-2010 (Profa. Dra. Márcia Atálla Pietroluongo – UFRJ e Prof. Dr. Mauricio Mendonça Cardozo – UFPR), oficializando um desejo dos membros do GTTRAD presentes nas reuniões ocorridas em Goiânia, durante o XXIII ENANPOLL (2008), inauguraram a prática, nos anos em que não houvesse o encontro do GT na ANPOLL.

Conforme explicitado, esse encontro intermediário se constitui como um “fórum de debate sobre os rumos da pesquisa na nossa área, um espaço para tentarmos levar um pouco adiante algumas daquelas conversas e discussões que sempre acabam sendo abreviadas pelas dinâmicas comuns de apresentação de trabalho nos grandes congressos”. As preocupações que informam o tema geral do X Encontro Nacional de Tradutores [http://www.nastrilhasdatraducao.ufop.br/] dão a tônica das discussões:

Quais são os conceitos fundamentais que unem essas subáreas sob a égide da disciplina Estudos da Tradução? Teriam essas subáreas seguido trilhas próprias com metodologias e fundamentação teórica diferenciadas? Teríamos chegado a um grau de expansão que implicaria uma reformulação na unidade disciplinar dos Estudos da Tradução?

Em consonância com o tema do evento, o objetivo do I ENCONTRO INTERMEDIÁRIO DO GTTRAD / IDENTIDADE NA DIVERSIDADE DA PESQUISA NOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO é formulado nos seguintes termos: “aprofundar a discussão de questões ligadas à identidade na diversidade da pesquisa na área dos Estudos da Tradução”, com ênfase nas mudanças ocorridas na configuração da pesquisa no cenário brasileiro, desde a década de 70 (Holmes, 1972, 1988, 2000).

As perguntas propostas são: (i) O que éramos ontem, o que somos hoje, o que queremos ser amanhã? (ii) O que nos une como área? (iii) O que nos separa em cada uma de nossas subáreas? (iv) Qual o ônus e o bônus desse esforço para manter uma unidade? (v) Quais os custos e benefícios de uma política de centramento disciplinar num campo de vocação interdisciplinar?
Neste contexto, pretendo, então, dialogar com as cinco perguntas, oferecendo minha leitura, historicamente contextualizada, sobre o cenário atual da pesquisa dos Estudos da tradução, no Brasil. A primeira – O que éramos ontem, o que somos hoje, o que queremos ser amanhã? – será desdobrada nas três partes que a constituem.

Cumpre, inicialmente, apresentar meu locus enuntiationis, o lugar a partir de onde falo. Sou afiliada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em que desenvolvo atividades docentes em Estudos da Tradução, ministrando disciplinas e supervisionando pesquisa, no âmbito de iniciação científica, mestrado e doutorado. Venho de uma tradição de estudos lingüísticos, o que impacta diretamente um de meus dois interesses de pesquisa em Estudos da Tradução, a exploração de interfaces entre Estudos da Tradução, Linguística Sistêmico-Funcional e metodologias de corpus, sendo o segundo deles, o mapeamento dos Estudos da Tradução no Brasil. Os dois interesses de pesquisa se fazem presentes em artigos, capítulos de livros, organização de volumes especiais, apresentação de trabalhos e orientação de pesquisa, no âmbito de graduação, especialização e pós-graduação.

No que tange o primeiro, duas ilustrações são documentadas em Pagano & Vasconcellos (2005) [Nota 1] e Vasconcellos (no prelo) [Nota 2]. No que tange o segundo, minhas investigações instalam-se no âmbito de mapeamento do campo disciplinar, uma vez que questões de identidade disciplinar e expansão disciplinar se constituem em uma curiosidade que me move em direção a estudos bibliométricos (cf. Pagano & Vasconcelos 2003, 2004 [Nota 3]), à produção de resenhas de obras nitidamente mapeadoras (cf. Vasconcellos, 2005) e à participação no Grupo de Pesquisa denominado ‘Mapeamentos nos Estudos da Tradução’ [Nota 4] liderado por Fábio Alves da Silva Júnior e Werner Heidermann, do qual participam os colegas aqui presentes. [http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=5083038168307301].

O objetivo desta ‘historicização’ de minha fala é deixar claro que minha contribuição está ‘contaminada’ por minha trajetória acadêmica e que, portanto, apresenta minha resposta às questões propostas pela coordenação do GT. Compartilho as reflexões com meus colegas, com vistas a contribuir para a discussão sobre a natureza multifacetada da produção acadêmica nos Estudos da Tradução no contexto brasileiro.

2. Tentativa de diálogo com as perguntas propostas

2.1 O que éramos ontem: tendência centrípeta

O primeiro segmento da primeira pergunta – O que éramos ontem – remete à história do GT-TRAD. No eixo histórico, saliento alguns textos que considero fundacionais e que, a meu ver, manifestam tendências centrípetas, na busca por unidade identitária na luta por visibilidade institucional. O primeiro texto é o texto de Maria Paula Frota e Rosemary Arrojo, publicado nos Anais do VII ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL, realizado em Porto Alegre, 1992, ‘A Organização do GT de Tradução e a Pesquisa Desenvolvida na Área’. Nesse texto, as autoras descrevem a estrutura funcional do GT e os desdobramentos advindos do trabalho do GT, a saber: (i) a fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores em Tradução – ABRAPT – e o sindicato dos tradutores – SINTRA – que vieram por contribuir p institucionalização da área como disciplina acadêmica. Nesse texto, o que chamou minha atenção foi o fato de as autoras explicitarem a ‘marginalidade’ dos ‘estudos sobre tradução ’ [Nota 5], desenvolvidos “às margens da pesquisa que se faz tanto nas áreas de Letras como de Lingüística”.

O segundo texto que desejo resgatar é aquele produzido por Maria Paula Frota, Márcia do Amaral Peixoto Martins e Cristina Carneiro Rodrigues, publicado na Revista da ANPOLL (1994, 67-70): ‘Breve história do GT de Tradução e sua importância para o desenvolvimento da área em nosso país’. Aqui, as autoras resgatam o momento inaugural GT de Tradução, apontando dois motivos fizeram do ano de 1986 “auspicioso para a área de tradução”: o primeiro deles foi exatamente a presença do GT de Tradução entre os 21 (vinte e um) Grupos de Trabalho (GTs) do I encontro Nacional da ANPOLL. As autoras resgatam, ainda, a data da primeira reunião do GT – 1987 – durante o II Encontro Nacional, na UFRJ, ano em que a coordenação foi assumida pela professora Maria Cândida Bordenave (PUC-RJ). O que me chamou a atenção nesse texto foi o relato da definição de prioridade para o biênio: ‘criação de espaço acadêmico próprio’, uma vez que, conforme mostram as autoras, a tradução encontrava-se “disseminada nas mais diversas áreas, constituindo, na melhor das hipóteses, uma linha de pesquisa, vinculada à área de concentração em estudos da linguagem”. Interessante observar que, na reunião realizada em Caxambu (1994), a linha de pesquisa definida para o próximo biênio foi “A tradução como área de convergência multidisciplinar”, o que, pelo menos para mim, configura-se como uma situação absolutamente atual. Resgato, finalmente, segundo motivo que, segunda as autoras de ‘Breve história do GT de Tradução e sua importância para o desenvolvimento da área em nosso país’, fez de 1986 um ‘ano auspicioso’: a criação, em nível de pós-graduação, da primeira área de concentração em tradução do país, no Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNICAMP. Curioso observar que um Curso de Pós-Graduação – Mestrado em Estudos da Tradução só veio a ser aprovado em 2003, sendo implementado a partir de 2004 – 18 (dezoito) anos após a criação da primeira Área de Concentração em Tradução: Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (PPGET), que tem por objetivo formar profissionais competentes para o exercício das atividades de pesquisa, tradução propriamente dita, e magistério superior na área de tradução. Uma leitura possível dessa distância temporal é a natureza tortuosa dos caminhos da institucionalização do campo disciplinar.

Finalmente, um novo texto de Maria Paula frota – ‘O GT de Tradução da ANPOLL: história e perspectivas’ – produzido no âmbito da proposta da Coordenação do GT no biênio 2004-2006, um painel intitulado “Os caminhos da institucionalização dos Estudos da Tradução no Brasil” [http://letra.letras.ufmg.br/gttrad/anpoll.html]. Num trabalho abrangente e rigoroso, a autora parte da consideração das circunstâncias em que surge o GT-TRAD, vinculando o movimento de sua fundação “aos movimentos mais amplos que se deram no campo disciplinar dos Estudos da Tradução, tanto no âmbito nacional quanto internacional”. Por meio de um passeio descritivo pelos cursos universitários a partir de 1968 (data da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases-LDB), descreve pontualmente os momentos decisivos na criação de habilitações de tradutor e intérprete na universidade brasileira; em seguida, resgata a data e as circunstâncias de formação da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES) e do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), 1975 e 1988, respectivamente. No contexto do II Encontro Nacional da ANPOLL (1987), a autora explica a inserção do GT-TRAD à área de Letras, em função da vinculação histórica do docente responsável pela sugestão da formação do GT (Prof. Edson Rosa da Silva, vinculado à área de literatura). A partir daí, o percurso traça a inserção dos Estudos da Tradução nos Programas de pós-graduação, a trajetória das várias reuniões do GT (resgatando as configurações estruturais, desde a proposta e extinção dos GTs Regionais), para, finalmente, reconstruir, de forma crítica, as diversas iniciativas das várias coordenações bienais sempre com a preocupação de historicizar os momentos decisivos. Nesse esforço bem sucedido, a autora aponta, entre os condicionantes históricos, a presença determinante de pesquisadores com suas diversas especificidades e interesses, o que vem por impactar o perfil do GT em seus diversos momentos.

É exatamente com essa consideração das circunstâncias condicionantes do momento histórico que encerro esta seção: ‘o que éramos’ foi informado pela necessidade histórica de criação de identidade do campo disciplinar e por uma tendência centrípeta para garantir a unidade na luta por visibilidade institucional. Quanto a ‘o que somos hoje’ e a ‘o que queremos ser amanhã’, a serem discutidos a seguir, tendências centrífugas explicam o novo momento histórico, em que, passado o momento identitário, expansões são bem-vindas no campo disciplinar, manifestadas nas várias interfaces estabelecidas com disciplinas afins.

2.2 O que somos hoje, o que queremos ser amanhã: tendência centrífuga

Meu entendimento do que seja um Grupo de trabalho insere-se na consciência de contexto histórico, uma vez que um GT emerge da confluência de especialidades e interesses de um grupo de pesquisadores que se organizam, num determinado momento, a partir ou de um objeto de estudo comum, ou de uma teoria comum, ou de uma metodologia comum. Nesses termos, vejo ‘o que somos’ enquanto GT na própria configuração das subáreas do X ENTRAD, que retrata nossa atual natureza: Historiografia; Tradução Audiovisual; Tecnologias da Tradução; Ensino, Avaliação e Acreditação; Tradução e Psicanálise; Estudos de Corpora; Modelagem da Tradução; Processo Tradutório e Desempenho Experto; Tradução Juramentada e Técnica/Especializada; Terminologia; Tradução Literária; Tradução e Análise Textual; Tradução de Língua de Sinais; Estudos sobre Interpretação; Tradução de Textos Sensíveis; Ética na Tradução. Essas subáreas – que ainda não encapsulam toda a diversidade da pesquisa no contexto brasileiro – não foram ‘inventadas’ num vácuo, mas calcadas na disponibilidade de expertise disponível neste momento histórico, o que leva ao meu segundo ponto, a natureza dinâmica e flexível do GT, sempre em mutação.

Entretanto, não vejo esse dinamismo, essa flexibilidade e essa mutabilidade como impedimentos para o estabelecimento de nossa identidade; apenas saliento que ‘o que somos’ não tem caráter fixo, mas ‘fixa’ temporariamente o estado atual de nossa configuração. O que me leva a considerar que somos, atualmente, um Grupo de Pesquisadores em Estudos da Tradução que estão caminhando em direção a interfaces com disciplinas afins, o que configura, a meu ver, um movimento de expansão, posterior ao bem documento momento identitário da fase inicial. O momento atual parece ser impulsionado por forças centrífugas, que leva o campo disciplinar para além do confinamento das teorias totalizantes de décadas anteriores, que, a meu ver, mantinham a pesquisa em tradução sob a égide da literatura (sobretudo a comparada) e da lingüística (sobretudo a contrastiva). Não quero dizer que tais disciplinas não tenham conexões íntimas com a história da pesquisa em tradução, nem que não tenham o que contribuir; quero apenas retomar a tão discutida complexidade dos fenômenos que envolvem a tradução: as diferenças não podem ser apagadas em nome de categorizações que não mais se sustentam. O que vejo, então, em nossa configuração atual enquanto Grupo de Trabalho é um desenho multifacetado, que busca o debate sobre o que faz parte do campo disciplinar, também dinâmico, flexível e mutável, com vistas a buscar, cada vez mais, perspectivas, que nos ajudem a entender e descrever nosso objeto de estudo, em suas mais variadas manifestações.

Nosso momento está, a meu ver, em consonância com as preocupações do contexto europeu desde a década passada, conforme manifestado, por exemplo, no volume organizado por Bowker et al, Unity in Diversity? Current Trends in Translation Studies (1998): uma coleção ensaios que exploram a questão central da identidade disciplinar, em associação com a questão igualmente central expansão disciplinar. O diálogo interdisciplinar promovido pela coleção, como indica o titulo do volume, explora a possibilidade de unidade na diversidade manifestada nas diferentes tendências de pesquisa em Estudos da Tradução. Nas palavras dos organizadores do volume (minha tradução), tal diálogo interdisciplinar não se reduz a uma mera ‘justaposição amorfa’ (p. vi), mas, ao contrário, sugere as complexidades dos Estudos da Tradução, em que ‘celebrar nossas diferenças não implica denegrir o caráter comum de nossas preocupações’ (p. v.). Curioso que, ainda em 2005, a preocupação com a identidade disciplinar – semelhante à nossa – se fez presente no I Congresso Internacional I IATIS Conference: “Disciplinary Identity – Redefining Translation in the 21st Century” (cf. www.iatis.org/content/korea/programme.php).

Com relação a – ‘o que queremos ser amanhã’ (aqui entendido como o que ‘eu’ vejo como interessante para o futuro do GT) – observo dois pontos. O primeiro diz respeito diálogo interno do grupo de trabalho e o segundo diz respeito ao diálogo externo do GTTRAD. No que diz respeito ao diálogo interno, percebo ausências na configuração atual do GT que, potencialmente – considerando-se o tipo de expertise presente em nossos programas de pós-graduação ¬– poderiam se fazer presentes. A título de ilustração, cito as abordagens feministas ao Estudos da tradução, que já conta com colegas especialistas do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução – PGET; ou a investigação sistemática das questões de relações de poder e tradução, no viés pós-colonial, que também pode vir a ser representado: a investigação das relações entre línguas e entre comunidades por meio da investigação dos contextos de produção e disseminação de traduções, bem como de estratégias utilizadas, pode possibilitar tornar visíveis os loci de poder que informam a circulação global de traduções.

O segundo ponto que desejo destacar diz respeito ao diálogo externo do GT-TRAD. Percebo a necessidade de tentativas de interação com outras instâncias internacionais, para o estabelecimento de diálogo com fóruns que compartilham nossas preocupações. Por exemplo, o GTTRAD poderia tentar diálogo com a John Benjamins Publishing House, que tem desenvolvido um projeto internacional, com a colaboração de pesquisadores de diferentes instituições – Lessius Hogeschool e a European Society for Translation Studies (EST), visando a construção do que eles denominam uma ‘árvore conceitual’ (‘conceptual tree”), para fins de capturar a diversidade nas orientações teóricas e metodologias nos Estudos da tradução (cf. www.benjamins.com/online/tsb). Essa orientação, pressuponho, está de alguma forma contemplada na conferência de encerramento do X ENTRAD, a ser proferida pelo Prof. Dr. José Lambert, da Catholic University of Leuven, intitulada Globalisation of Translation Studies: a julgar pelo resumo apresentado, a fala busca demonstrar os benefícios advindos do compartilhamento internacional das configurações locais. Acredito que o diálogo internacional pode se mostrar profícuo, no sentido de nos proporcionar uma linguagem conceitual comum e no sentido de contribuir para a consolidação da disciplina.

2.3 O que nos une como área / O que nos separa em cada uma de nossas subáreas?

A maneira como respondo às questões tratadas nesta subseção se insere na configuração das forças que impulsionam os movimentos do campo disciplinar: a força centrípeta (que busca manter a identidade dos Estudos da Tradução) e a força centrífuga (que busca capturar as manifestações em constante mutação de atividades e investigações que podem ser incluídas sob a denominação de nossa disciplina). ‘O que nos une’, então, pode ser lido como o desejo e a necessidade de nos consolidarmos enquanto campo disciplinar constituído, inclusive com vistas a espaço institucional juntos aos órgãos reguladores da pós-graduação no Brasil; o que nos une, ainda, pode ser lido com o ‘objeto comum de interesse de pesquisa’ – a tradução, como fenômeno multifacetado.

‘O que nos separa em cada uma de nossas subáreas?’. O foco de nosso olhar investigativo. A título de ilustração, menciono apenas alguns dentre os vários: por exemplo, a distinção entre tradução enquanto produto e tradução enquanto processo; investigação da linguagem da tradução; questões práticas do trabalho de tradução (o cliente que ‘encomenda’ o serviço a ser prestado, as formas de pagamento, etc.), questões de tecnologia de apoio à tradução propriamente dita e à pesquisa, e condições de produção e disseminação de textos traduzidos, questões mais amplas das relações de poder envolvidas em situações línguas e culturas. Por necessidade, o foco do olhar vai informar os arcabouços teóricos e metodológicos a informar a pesquisa, gerando as diferentes interfaces em que desenvolvemos nosso trabalho.

A partir dessas reflexões, restam as questões finais: Qual o ônus e o bônus desse esforço para manter uma unidade? Quais os custos e benefícios de uma política de centramento disciplinar num campo de vocação interdisciplinar?

2.4 Qual o ônus e o bônus desse esforço para manter uma unidade? Quais os custos e benefícios de uma política de centramento disciplinar num campo de vocação interdisciplinar?

As perguntas desta subseção são tratadas em conjunto, por serem por mim consideradas passíveis de agrupamento num mesmo conjunto de reflexões, ligados à oposição entre as forças centrífugas e centrípetas que atuam no interior dos Estudos da Tradução, ainda refletindo a natureza interdisciplinar e a ‘crise de identidade’ desta ainda jovem disciplina.

O ‘bônus’, como espero já ter mostrado, tem caráter teórico-metodológico e, principalmente, político: a apropriação da identidade na diversidade, pelos membros da comunidade do campo disciplinar, o reconhecimento da diversidade como inerente à natureza interdisciplinar dos Estudos da tradução, bem como o conseqüente fortalecimento da área na busca por espaço institucional justificam os esforços de ‘centramento’. Manter a unidade permite ‘falar a mesma língua’, sobretudo no que concerne conceitualizações e terminologias da área, e, por conseqüência, permite a comunicação interna.

O ‘ônus’, a meu ver, está no perigo de se desmanchar as diferenças em nome da unidade e no perigo de sacrificar a periferia em nome das forças centrípetas. Negligenciar ou excluir fenômenos relevantes é um cenário possível e perigoso. Para diluir esse perigo, sugiro, então, evitarmos praticar nossas próprias formas de exclusão e ‘marginalidades’, repetindo, internamente, a exclusão que os Estudos da Tradução vêm sofrendo na comunidade científica. Nesse sentido, vale tentar não entrar no que Pöchhacker (1998) denomina, no contexto de estudos de interpretação, ‘batalha de paradigmas’, devido à intrínseca diversidade de seu objeto de estudo. Como diz Pöchhacker, a comunidade não se beneficia de uma busca por uniformidade de abordagens metodológicas per se. Ao contrário, pode se beneficiar de uma transformação de sua diversidade em um tipo de força: o reconhecimento e aceitação da diversidade podem dar espaço à descoberta de novas relações e conexões, reforçando, assim, o sentido de unidade e coerência interna (169).

3. Reflexões finais

Retomo o título que escolhi para meu texto: ‘ComUNIDADE na diversidade dos Estudos da Tradução?’ Observe-se que optei por um ponto de interrogação, para sinalizar o status inconclusivo que a questão tem para mim. O título foi inspirado no texto de Pöchhacker (1998), já citado anteriormente e, assim, ecoa as preocupações desse autor, com quem compartilho o entendimento dos méritos da unidade e as virtudes da diversidade: uma das maneiras de fortalecer a coerência interna pode ser desenvolver um acolhimento da diversidade intrínseca do fenômeno da tradução e dos Estudos da Tradução, enquanto campo disciplinar estabelecido e consolidado.

Finalmente, termino com uma reflexão que me consola. Por vezes, percebo os Estudos da Tradução no Brasil se debatendo sobre questões que podem parecer repetitivas. Entretanto, se é que isso realmente oferece algum tipo de conforto, preocupações semelhantes ainda se manifestam – em 2009 – no contexto internacional. Evidência disso é oferecida pela recente publicação da Routledge, Translation Studies, organizada por Mona Baker, que congrega tanto textos fundacionais do campo disciplinar (enquanto área internacional e interdisciplinar de investigação) quanto contribuições mais recentes, na busca por demonstração das diversas formas de pesquisa em tradução: desde pesquisas inseridas em, ou tocando, ainda que tangencialmente, disciplinas acadêmicas tradicionais, como lingüística, crítica literária, filosofia, antropologia, estudos culturais, até novas formas de olhar e descrever a complexidade dos fenômenos envolvidos na tradução [http://www.routledgelinguistics.com/books/Translation-Studies-isbn9780415344227].

O que, se não consola, no mínimo me leva a crer que não estamos delirando sozinhos.

Referências
ARROJO, R. & FROTA, M. P. (1992). A Organização do GT de Tradução e a Pesquisa Desenvolvida na Área. Anais do VII ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL. Porto Alegre.

FROTA, M. P., MARTINS , M. A. P., RODRIGUES, C. C. (1004). Breve história do GT de Tradução e sua importância para o desenvolvimento da área em nosso país. Revista da ANPOLL (p. 67-70).

FROTA, M. P. O GT de Tradução da ANPOLL: história e perspectivas. In: “Os caminhos da institucionalização dos Estudos da Tradução no Brasil”. [http://letra.letras.ufmg.br/gttrad/anpoll.html]

BOWKER, L. et al. (Eds.) Unity in Diversity? Current Trends in Translation Studies. Manchester, UK: St. Jerome, 1998.

HALLIDAY, M.A.K., McINTOSH,A.; STREVENS, P.D. (1964). The Linguistics Science and Language Teaching. London/New York: Longman.

HOLMES, J. S. (1972/1988). The Name and Nature of Translation Studies. In: Translated! Papers on Literary Translation and Translation Studies. Amsterdam: Rodopi..

PAGANO, A., VASCONCELLOS, M. L. Estudos da Tradução no Brasil: reflexões sobre teses e dissertações elaboradas por pesquisadores brasileiros nas décadas de 1980 e 1990. Revista Delta, São Paulo, v.19, p.1-26, 2003.

PAGANO, A. S. & VASCONCELLOS, M.L. (2004). Estudos da Tradução: Perfil da Área. IN Proceedings of III CIATI – Congresso Ibero-Americano de Tradução e Interpretação. Electronic Publication (www.unibero.edu.br/spw_3ciati_en.asp).

RICCARDI, Alessandra (Ed.) (2002). Translation Studies- Perspectives on na Emerging Disicpline. Cambridge: CUP.

VASCONCELLOS, M.L. (2005). Resenha: Bowker, L. et al. (Eds.) Unity in Diversity? Current Trends in Translation Studies. Manchester, UK: St. Jerome, 1998. IN: Ilha do Desterro (48), p. 229-234.

PAGANO, A. S. & VASCONCELLOS, M.L. (2005). Explorando interfaces: Estudos da Tradução, Lingüística Sistêmico-Funcional e Lingüística de corpus. IN: Alves et al. Competência em Tradução: Cognição e Discurso. Belo Horizonte/MG: Editora da UFMG, p. 157-188.

PÖCHHACKER, F. (1998). Unity in diversity. The Case of Interpreting Studies. In Bowker, L. et al. (Eds.) Unity in Diversity? Current Trends in Translation Studies. Manchester, UK: St. Jerome, 1998, p.169-176.

VASCONCELLOS, M.L. (2009, no prelo). Systemic Functional Translation Studies (Sfts): The Theory Travelling In Brazilian Environments. IN D.E.L.T.A, no prelo.

Referências eletrônicas:

Blog do GT [http://gttrad.wordpress.com]

Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil – Mapeamentos nos Estudos da Tradução.

http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=5083038168307301

http://www.stjerome.co.uk

www.unibero.edu.br/spw_3ciati_en.asp

www.benjamins.com/online/tsb

www.iatis.org/content/korea/programme.php

http://www.routledgelinguistics.com/books/Translation-Studies-isbn9780415344227

Notas

NOTA 1 – Este trabalho apresenta o estado da arte da pesquisa realizada nas interfaces entre Estudos da tradução, Linguística sistêmico-funcional e metodologias de corpus, até o início da década de 2000, resenhando pesquisa no contexto nacional e internacional. Aqui, é evidenciada a robustez da interface teórico-metodológica para a descrição de ‘ textos em relação tradutória’ (cf. Halliday 1964, p. 124).

NOTA 2 – Este trabalho – cuja versão inicial foi apresentada no congresso 4th ALSFAL – 4th CONFERENCE OF THE LATIN AMERICAN SYSTEMIC FUNCTIONAL LINGUISTICS ASSOCIATION, Outubro, 2008, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Brasil – continua o mapeamento dos Estudos da Tradução Sistêmico-Funcionais no Brasil, desde sua origem e incluindo a década de 2000, buscando mostrar a trajetória dos chamados ‘Estudos da Tradução Sistêmico-Funcionais’. O trabalho termina com uma comparação da pesquisa em Estudos da Tradução Sistêmico-Funcionais no Brasil à pesquisa no contexto internacional, divulgada no congresso The 2nd HCLS Conference – “Translation, Language Contact, and Multilingual Communication”. The Halliday Centre for Intelligent Applications of Language Studies (HCLS). City University of Hong Kong (CityU) – 13-15 August, 2008. (http://www.hallidaycentre.cityu.edu.hk/hcls-c2-2008/html/pconf.asp).

NOTA 3 – Os textos tomam como base os dados do CD-ROM Estudos da Tradução no Brasil / Translation Studies in Brazil (2001), a partir dos quais examinam a produção de teses e dissertações sobre tradução por pesquisadores brasileiros, sob a perspectiva de sua localização temporal e institucional, observando-se modalidades de pesquisa realizada e a tendência quanto à afiliação teórica dos trabalhos. O mapa obtido a partir da análise dos dados é cotejado com o mapa desenhado por Holmes (1972; 1988), com relação aos Estudos da Tradução no contexto europeu, com vistas a refletir sobre a especificidade da produção acadêmica sobre tradução no contexto brasileiro.

NOTA 4 – As chamadas ‘repercussões dos trabalhos do grupo’ são definidas nos seguintes termos:As atividades deste grupo remontam ao Grupo de Pesquisa Estudos da Tradução criado em 1997 na Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2002 incorporaram-se ao grupo professores pesquisadores de outras quatro universidades brasileiras, quais sejam, a Universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, congregados em torno de um objeto de estudo que contemplou a tradução e o traduzir em suas múltiplas manifestações e possíveis inserções teóricas. Após um amadurecimento das reflexões e em decorrência da necessidade de estabelecer uma agenda que priorize o trabalho de referenciação do campo disciplinar, o grupo foi reestruturado em 2004 a partir de redefinições dos seus objetivos, a fim de realizar um mapeamento conceitual, teórico e histórico dos Estudos da Tradução no país e no exterior com vistas a instrumentar o campo disciplinar com obras de referência em língua portuguesa inexistentes no mercado editorial nacional. Suas metas específicas são: (a) o monitoramento da evolução dos Estudos da Tradução no país e no exterior; e (b) a publicação conjunta, de cunho teórico e aplicado, de um glossário e uma enciclopédia que contemplem o campo disciplinar dos Estudos da Tradução e que sejam socialmente relevantes no âmbito nacional e internacional. O grupo propõe-se a publicar, preferencialmente através de suporte online, os resultados de um mapeamento conceitual, teórico e histórico que almejam iluminar as dimensões textuais, discursivas, cognitivas, socioculturais e políticas do ato tradutório. Esses resultados podem ser consultados no sítio da Enciclopédia de Estudos da Tradução, ENCICLOTRAD – http://letra.letras.ufmg.br/enciclotrad -, desenvolvida por uma equipe interinstitucional constituída por especialistas selecionados com base em sua trajetória acadêmica e capacidade comprovada de liderança em suas respectivas áreas de atuação”.

NOTA 5 – Observe-se a trajetória da auto-representação do GT, conforme manifestada nas diferentes maneiras de auto-nomeação: aqui, fala-se em ‘estudos sobre tradução’. À medida que o campo disciplinar vai se estabelecendo, a auto-representação sofre mudanças. No momento atual, O GT está prestes a ser  denominado ‘GT de Estudos da Tradução’, conforme informado por Fábio Alves (comunicação pessoal via email): “para mudança oficial de nome do GT, é necessária aprovação do Conselho da ANPOLL e ratificação pela Assembléia Geral que se reunirá em Belo Horizonte no dia 5 de agosto ao final do XXIV Encontro Nacional da ANPOLL. A mudança de nome do GT-RAD já está lançada como ponto de pauta”. Cumpre observar que a denominação “Estudos da tradução”, conforme usada no Brasil, adquiriu características próprias, diferentes daquelas inicialmente propostas no contexto europeu – em que se mostrou, pelo menos em seus momentos iniciais, nitidamente vinculada a estudos literários (sobre o tópico, sugiro a leitura de Alessandra Riccardi (2002, p. 75-91). No contexto brasileiro, a denominação é mais abrangente e busca encapsular um conjunto de investigações sistemáticas cujo objeto de estudo é a tradução e o traduzir, em suas mais variadas manifestações.

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